Está um dia
de chuva, o céu coberto de nuvens negras e de uma espessura
tal que parece que vai demorar anos até que o sol consiga
entranhar-se por entre elas e disparar os seus luminosos tiros que,
tão estranhamente, são fonte de vida para todos estes
seres vivos que habitam por debaixo dessa imensa cortina que se
estende no céu.
Do interior do
automóvel, sinal dos tempos modernos, é
possível contemplar a beleza de toda esta natureza
fascinante, cuidadosamente preservada pelo homem de ontem e motivo
de orgulho do homem de hoje, da qual continua a usufruir como seu
próprio meio de sustento de uma vida
inteira.
O veículo vai
avançando, seguindo uma estrada de alcatrão, outrora
de pedras e cheia de buracos, até encontrar uma dessas
placas que têm a função de nos guiar, de nos
dizer em que parte do mundo nos encontramos. A placa diz
simplesmente “MALHADAS”. É então que o
membro inferior direito do condutor começa a dar sinais de
fraqueza, conferindo cada vez menos força ao acelerador,
fazendo o veículo avançar numa marcha tão
lenta, quase anunciando que, em breve, o veículo
parará… É então que esta nobre
família percebe que aquela simples placa, inicialmente vista
como um mero “ponto de guia” no seu longo caminho ainda
a percorrer, tem agora a função de lhes anunciar que
a sua viagem termina aqui…
As nuvens do
céu desvanecem-se, os raios de sol começam, enfim, a
“puxar o lustro” desta luminosa Terra, fazendo-a
brilhar. Um brilho tão intenso que ofusca a vista dos quatro
constituintes desta família de turistas que começam a
dar-se conta de toda a magia concentrada neste território e
para a qual não são necessárias muralhas
algumas para impedir a sua fuga. Essa magia continuará
lá, tal como se aguentou desde o primeiro momento de
existência deste autêntico
Paraíso…
Lá bem no
alto da aldeia, com uma localização quase
milimetricamente centrada, erguia-se a Igreja, um imponente
monumento, visto de fora mas, ao mesmo tempo, tão angelical
como aterrador, olhado por dentro. Era aquele o símbolo
máximo desta envelhecida população que o
olhava como uma espécie de meio de salvação, a
primeira das “estações de serviço”
das suas almas que, em breve, iniciariam uma longa viagem que as
levará ao encontro daqueles que um dia se afastaram de
nós. Na porta desta igreja, há ainda sinais de outros
tempos. Nela está inscrito o nome de um dos Generais,
encarregado de comandar os seus homens aquando da Invasão
Francesa.
Imbuídos do
Espírito religioso, estes turistas deixaram de poder ver com
os seus próprios olhos. Era como se as suas almas tivessem
sido arrancadas dos seus corpos e começassem e agora a
vaguear por esta agradável atmosfera, tal como passarinhos
em tempo de Primavera.
Deste modo, puderam
contemplar a alegria que rege todas estas pessoas,
abençoadas por habitarem num Mundo assim, no seu Mundo
Próprio, tão abençoado como o local para onde
as suas almas partiriam um dia.
As criancinhas
brincavam em plenas ruas, enchendo-as de cor e alegria. As
habitações, essas eram cada vez em maior
número, cada vez mais afastadas do centro da aldeia, quase
marcando uma barra cronológica. Como seria lógico, as
habitações mais velhas estavam situadas mais perto da
igreja, enquanto as casas mais modernas se afastavam cada vez mais,
cada vez mais em direcção à cidade e com o
intuito de, talvez, lá chegar um
dia.
Mas nem todo o
território estava habitado. Para além deste e de
outros monumentos marcantes e históricos, esta aldeia era
ainda composta de uma enorme porção de
“natureza pura”, território ainda não
habitado, onde os gados podiam pastar, onde os vegetais cresciam,
onde a chuva caía, fazendo crescer toda essa verdura
selvagem que ninguém se atreverá a cortar ou queimar,
pelo simples facto de não querer “magoar” toda
esta beleza e toda a simplicidade que ela
comporta.
Por entre essa
imensidão de verdura, saltam à vista as enormes
rochas que, um dia, foram disparadas por essa enorme
explosão que originou também o chão onde
pisamos. Eram também regalos para os seus olhos a Ribeira
onde corre uma água bem mais cristalina que aquela que corre
dentro dos canos e onde os peixinhos, na maioria pequenos, se
alimentam daqueles bichos minúsculos que caem da copa das
árvores, traídos pelo
vento…
Do cimo das
árvores, e quase à mesma altura a que as almas destes
turistas vagueiam, erguem-se outros troncos de árvores,
ainda maiores, mas em número bem mais pequeno, já sem
ramagem, onde as cegonhas aproveitam para se instalar e
constituírem os seus ninhos que, palha a palha, fio a fio,
folha a folha, tanto trabalho lhes deu a concluir. Se não a
elas, a outras da mesma espécie, em anos anteriores e que
elas agora ocuparam, cumprindo assim a s regras do Cruel Mundo
animal.
Enfim, o dia
começa a escurecer. E como a luz do dia é a fonte de
todos os sonhos, de todas as ideias maravilhosas que surgem na
nossa cabeça e nos fazem ficar radiantes de alegria, agora
que a escuridão começa a instalar-se, as almas destes
quatro turistas começam, enfim, a regressar a seus corpos.
Em breve eles vão sentir-se acordados de um coma bem
profundo, tanto que dele não queriam sair. A certeza de
quererem continuar neste “pedaço de céu”
surge-lhes na cabeça, ninguém discorda, eles querem
ficar aqui, as crianças exigem isso a seus
pais.
Nós, os
anfitriões, apenas diremos: “Sejam muito bem vindos,
disfrutem deste nosso território abençoado”. Ao
que eles responderão: “Sabíamos que não
poderia ser diferente…”
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